sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A cidade mais querida do Brasil

Estamos em Florianópolis, ainda é janeiro, e embora o sol ande meio sumido, poucos discordariam da idéia de que vivemos na melhor cidade da América do Sul. Rodeada –literalmente – de mar, atravessada por mangues e lagoas, ares cosmopolitas, um "ainda pequeno" número de habitantes, a permanência de certas "tradições" e curiosidades, etc.etc., fazem deste Ilha da Magia, pedacinho-de-terra- beleza-sem- ar. Até o nome, de triste memória, foi modificado pelo uso e Floripa é o nome que mais traduz a "natureza".
Mas nem tudo são flores neste paraíso: antes que o sol entrasse em aquário, o prefeito ora de plantão autorizou mais um reajuste na tarifa dos ônibus urbanos, ato já previsto ainda no apagar das luzes de 2007. Poderia passar batido tal aumento, se tomássemos como verdade as razões financeiras dos empresários do setor, apoiadas pelo secretário de transportes, afinal, são "apenas "10 centavos" a mais, isso se o cidadão não tiver aderido ao "vantajoso" cartão eletrônico", através do qual paga-se menos, porém, antecipadamente às queridas empresas que detém a concessão deste serviço urbano essencial. Esta decisão ressoa com o título de cidade mais querida do Brasil....
Se depender do atual compromisso dos políticos de plantão, e dos empresários de sempre, os dias de nossa declarada glória estão definitivamente no fim. Em que pese a beleza das pontes e a linda cor do Atlântico sul, que podemos admirar de cima de uma delas, não há quem ache bacana perder horas do dia num tráfego extenuante, povoado por milhares de veículos, em sua maioria carregando... uma pessoa! Bem, sabemos que, diante de altas tarifas, trajetos precários, poucos horários e das crescentes facilidades na aquisição de um veículo, as pessoas acabam abandonado o coletivo e adotando o carro particular como seu principal meio de locomoção. São estes os "mais queridos" do poder público (Poder? Público?), que, juntamente com as mídias e os leitores, quedam-se espantados diante da crescente epidemia de mortes externas... provocadas pelo trânsito, se é que se pode transformar em um sujeito (e ainda, violento!) o que é apenas um cenário ou um território de passagem. Bem, numa sociedade motorizada, competitiva, agressiva, violenta, onde os padrões de tempo, eficiência, poder, masculinidade restringem-se a transgredir as regras da direção defensiva, arduamente "ensinadas" nos cursinhos do DETRAN, como poderia ser diferente?
Aliás, mortes e acidentes no trânsito na Grande Florianópolis estão assumido proporções tão absurdas que já compõe uma epidemia, conforme mostra um estudo intitulado sábia e tristemente "Violência no Paraíso" . Segundo sua autora, os óbitos decorrentes de acidentes de trânsito são a principal causa de mortes por causas externas da região metropolitana, contribuindo para que SC esteja no ápice do cenário nacional de mortes deste tipo, cenário este que, aliás, não é nada alentador:as mortes por causas externas tem crescido enormemente, no país, atingindo sobretudo, uma população jovem, e,também, masculina. Dela fazem parte as mortes por assassinato e por suicídio. E é neste contexto, de enorme complexidade, mas nem por isso, "natural", nem absolutamente "normal", é que temos que situar as decisões referentes ao aumento nas tarifas e ao lugar que ocupa o transporte público e coletivo nos governos municipais, como esta com que fomos brindados por nosso prefeito.
O que tem sido feito na cidade mais querida do Brasil, então? Imobilismo na criação de alternativas, aumentos das tarifas, diminuição na frota. Sim, diminuição no número de ônibus e no número de passageiros, esta é a triste realidade desta querida cidade: entre os anos de 1980 e 2004, observa-se que até 1996 o número de passageiros transportados pelos ônibus da cidade aumentou continuamente, porém a partir desta data, passou a diminuir! É o que mostra outro estudo recente: entre 2003 e 2004, aliás, período no qual foi instituído o Sistema Integrado", houve a queda de cerca de 54 mil pessoas transportados para 44 mil (2004). Além disso, entre 2004 e 2006, se o número de passageiros aumentou relativamente, o número de viagens realizadas diminuiu (de 1.980.753 em 2004, para 1.751.896 em 2006), segundo a Secretaria de transportes. Quando deveria não apenas aumentado não apenas como "conseqüência" do aumento significativo da população, mas também em função das medidas internacionais que deveriam estar sendo tomados no sentido de mudar a lógica de desenvolvimento insustentável e suicida.
Como pode ser isso? Se Floripa é uma das cidades médias que mais cresce no país, o "normal" seria que o aumento das gentes acarretasse no mínimo um aumento proporcional dos passageiros., e que a prefeitura e demais responsáveis se dedicassem a facilitar a dita "mobilidade" urbana do ponto de vistas das sociabilidades e do meio ambiente. É o contrário! Talvez por isso a média de veículos por habitante (são medias, mas dizem algo) seja de 1,6 habitante por cada carro particular. O automóvel gasta em media,, 12,7 vezes mais energia que o ônibus, e 17 vezes mais poluição, e ocupa 6,4 vezes mais espaço por pessoa. Façamos alguns breves cálculos para chegar à brilhante conclusão de os engarrafamentos são apenas a ponta visível deste grande iceberg, que não cessa de exibir suas bases.
Vejamos bem: estamos no século XXI, e parece haver um consenso de que todos devemos mudar de atitude para conter o aquecimento global ( ...). Parece que sim, a julgar pelos discursos, seminários "participativos" e cartas de intenções. Porém, quando descemos do plano das boas intenções e das "políticas politicamente corretas"(comuns nos primeiros dias do ano, e rapidamente esquecidas lá pelo dia 18), chegamos ao "esquecimento global" de tudo isso, e todos, individual e coletivamente, retomamos as nossas velhas vidinhas de sempre: nós, com nossos costumes tão difíceis de mudar, os políticos de plantão e os empresários, com suas velhas diretrizes, pautadas pela voracidade de lucro e de poder. Claro, com ar condicionado – da casa ao trabalho, mas, sobretudo, no carro, que ninguém gosta de sofrer com este calor(!) nem de perder tempo em engarrafamento. Senão, como poderíamos explicar que o transporte coletivo nesta Ilha esteja reduzido ao transporte rodoviário e que este custe mais caro do que o deslocamento individual via veículo particular? Não nos iludamos com medidas puramente simbólicas que beiram ao ridículo, como o "dia nacional sem carro" e migalhas do gênero, de ínfimo impacto, numa tempestade de decisões no sentido inverso. Decisões que não apenas contrariam todos os protocolos ambientais internacionais, as diretrizes nacionais que garantem o direito de acesso à mobilidade, mas também o cada vez mais escasso "bom senso", tão distante da ganância dos empresários e da subserviência dos políticos de plantão. A propósito, nós, da UDESC/FAED, recentemente vivemos na pele esta triste experiência, ao fazer uma romaria- que ainda não terminou- para "convencer" as autoridades ( autoridades?) municipais em ampliar horários e linhas que atendessem a "nova" demanda, surgida com a ida da FAED para o Itacorubi.)
Estamos em uma encruzilhada, e vamos ter que decidir. Não fazer nada, é bom lembrar, já é decidir: ou seguimos com a lógica rodocêntrica e individualista nacional, na qual ser cidadão significa ser condutor de "seu veículo", aplaudimos as novas tarifas, e, na seqüência óbvia desta trágica lógica – aguardem, que esta será a próxima novidade – a aprovação da 4a ponte! Temos que acabar com os engarrafamentos! (A propósito, para manter a lógica iatrogênica do atual modelito de desenvolvimento, seria interessante radicalizar de vez e construir já a vigésima ponte, ou, melhor ainda, fazer um grande e absoluto aterro, ligando a capital ao continente, afinal, ilhas não combinam com desenvolvimento!) Ou, então, levamos a sério as boas intenções de "ano novo", as reuniões em datas festivas, os títulos honoríficos, os "talentos" acadêmicos e profissionais que povoam a ilha, e exercitamos a capacidade criativa e o desejo político de fazer deste pedacinho-de-terra-beleza-sem-par algo bem diverso do que a mera repetição do mesmo. E escolhamos, radicalmente, um outro caminho: mais ônibus, mais linhas, menos tarifas, mais passes livres, ciclovias e bicicletas, barcos e barcas. Porque não?
Carmen Susana Tornquist